Prólogo


 Não importa o quanto você ache a sua vida bizarra, tudo piora quando o negócio passa para o esotérico...





 A chuva caía grossa sob a cidade de South Arcadia; a forte ventania castigava as copas das árvores de maneira feroz e as estradas encontravam-se escorregadias graças ao grande volume de precipitação. O céu parecia ruir.

 Chovia o previsto para todo o mês de novembro.

 Ainda assim, um temporal não era o suficiente para aterrorizar os habitantes, uma vez que todos já eram acostumados com as repentinas mudanças climáticas que ocorriam com certa frequência por aquela região. Existia uma relação de respeito entre os cidadãos e a natureza, onde os humanos concordavam em não desafiar a potência imperiosa de alguns fenômenos recorrentes, e portanto contentavam-se em apenas ficar em casa esperando a tempestade passar. No entanto, sempre havia uma ou outra exceção à regra...

 E dentre as poucas almas vivas que vagavam pelas ruas encharcadas daquela grande cidade, havia um jovem - que dependendo de sua interpretação poderia ser qualificado como muito corajoso ou muito inconsequente. Um adolescente por volta dos dezoito anos de idade, transitava de moto por uma rua central deveras famosa devido às suas curvas perigosíssimas.

 Parecia não temer, e de fato, não temia...

 Quem sabe se temesse houvesse sido diferente.

 A velocidade ia além do limite recomendado para tais circunstâncias, contudo, ele permanecia suficientemente focado em controlar a motocicleta, por mais que vez ou outra seus pensamentos viajassem para longe do asfalto.
 Muitas coisas ocupavam sua mente ao mesmo tempo; muitos problemas preocupavam-no simultaneamente, porém boa parte do nervosismo era anulado pela sua vibração otimista, por mais que estivesse difícil manter-se longe de um mau pressentimento que o assaltara naquela manhã. Havia suportado aquela angústia consigo desde que despertara de um amargo pesadelo.

 Talvez devesse ter acreditado em sua intuição...

 Quem sabe assim houvesse sido menos doloroso. 

 Não se importava em chegar completamente encharcado na casa de seu melhor amigo, contato que pudesse ficar longe dos inúmeros e recentes atritos de sua família. Queria desabafar e depois jogar basquete ao lado daquele que considerava seu irmão. Fazer o que amava ao lado de quem amava, pois para ele não havia algo melhor.
 A chuva torrencial não o amendrontava, somente lavava o sangue seco das novas feridas superficiais de sua alma; sentia-se abraçado por ela, chegava a ser acolhedor. Entretanto, não era como se estivesse respeitando a capacidade destrutiva daquela precipitação quase cataclísmica; não recuar equivalia a desafiar...

 E desafiar era um grande erro.

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